Foucault e a Insurreição Iraniana como Acontecimento: O Si e os Outros, Do assujeitamento à subjetivação/Foucault and the Iranian Insurrection as Event: The self and others, from subjection to subjectivation

Gabriela Menezes Jaquet

Resumo


O objetivo deste artigo é, de forma geral, discutir a noção de acontecimento enquanto uma das principais categorias para a leitura da obra de Michel Foucault, o que nos permite, a partir de uma determinada operacionalização, compreender todo seu projeto como uma acontecimentalização da história. A fim de especificar este processo, estabelecemos o diagnóstico foucaultiano da Insurreição Iraniana como mote de nossa verificação do acontecimento, em que atentaremos para dois aspectos que convergem no nexo principal do événement: o “poder pastoral” e a “espiritualidade política” conduzindo às novas proposições teóricas sobre a formação do sujeito. Será, assim, a partir do grande eixo da subjetivação que desenvolveremos nossa hipótese de leitura, referente à economia da obra foucaultiana, no que diz respeito ao acento espiritual do poder pastoral e o episódio iraniano como estando já inseridos em um movimento que deveria tentar pensar, continuamente, um sujeito outro. Desta forma, tais temáticas, abarcando a questão de um governo dos outros, carregarão igualmente a necessidade conceitual do governo de si, desenvolvida por Foucault através do “cuidado de si” durante a década de 1980. Para percorrermos este caminho, de uma acontecimentalização do levante no Irã, abordaremos primeiramente o poder pastoral e as contra-condutas no contexto do curso proferido no Collège de France em 1978, Sécurité, territoire, population. Em seguida enfocaremos a noção de “espiritualidade política”, utilizada em sua análise sobre o Irã, a partir de um cruzamento conceitual advindo de estudo pontual de L’Herméneutique du sujet, curso de 1982, a fim de poder explicitar, ao final, como a própria metodologia de uma filosofia do acontecimento procura atingir seu principal alvo, o sujeito, ao pensá-lo enquanto processo, através de um questionamento singular: “como se tornar sujeito sem ser assujeitado?”.

Abstract: The aim of this essay is to discuss the notion of event as one of the main categories for reading the work of Michel Foucault. In terms of the way it operates, the event allows us to understand Foucault’s entire project as an eventalization of history. In order to specify this process, we establish Foucault’s diagnosis of the Iranian Insurrection as a verification of the event, in which we attend to two aspects that converge in the main nexus of événement: “pastoral power” and “political spirituality”. Both of these lead to new theoretical propositions on the formation of subject. It is thus from the large axis of subjectivation that we develop our reading hypothesis. With reference to the economy of Foucault’s work, the spiritual tone of pastoral power and the Iranian episode are already inserted in a movement that should attempt to think continuously of an other subject. Such themes, by dealing with the question of a government of others, also bear the conceptual need of the government of self, developed by Foucault through the “care of the self” during the 1980s. To cover the path of an eventalization of the Iranian uprising, we first consider pastoral power and counter-conducts in the framework of the course given at the Collège de France in 1978: Security, Territory, Population. Then we focus on the notion of “political spirituality”, using Foucault’s analysis of Iran, from the conceptual crossing that emerges from the study of the Hermeneutic of the subject course given in 1982. Finally, we seek to explicate how the specific methodology of a philosophy of event aims to reach its main target, the subject, by thinking it as a process by means of a singular question: “how to become a subject without being subjected?”.

Keywords: Event; Michel Foucault; Pastoral power; Subjectivation; Contemporary French Philosophy

Palavras-chave


Acontecimento; Michel Foucault; Poder Pastoral; Subjetivação; Filosofia Francesa Contemporânea

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